sábado, 2 de outubro de 2010

CARTA DE MARINA SILVA A DOM MOACYR GRECHI, arcebispo de Porto Velho (Porto Velho, RO).




Li na Folha (22/5) sua afirmação de que sou frágil e não tenho perfil para a Presidência da República. No início, fiquei triste. Já tinha ouvido algo parecido do senhor, de forma carinhosa, mas ler assim como está no jornal tem outro peso. Refletindo mais, reconciliei-me com sua mensagem.

Quando ando por aí, muitos me dizem que minha luta é de Davi contra Golias. Então vamos conversar sobre passagens bíblicas, que conhecemos bem. Elas se completam e iluminam o que quero dizer. Quando Saul terminava seu reinado, Deus mandou o sacerdote e profeta Samuel ungir novo rei entre os muitos filhos de Jessé. O profeta procurou entre os mais belos, os mais fortes e os mais habilidosos, mas Deus descartou todos. Jessé lembrou então de Davi, o seu filho mais novo, que pastoreava ovelhas. O profeta o achou muito fraquinho, meio esquisito. Mas Deus ordenou que o ungisse rei dos israelitas, porque olhava para o seu coração, e não para a sua aparência.

Foi assim que Davi foi escolhido para ser rei. E logo provou seu valor ao enfrentar Golias, o gigante filisteu, guerreiro acostumado a usar escudo, capacete e armadura e a manejar a espada. O jovem Davi, aparentemente fraco e sem muito preparo para aquele tipo de duelo, ganhou a luta porque não tentou usar a armadura de Saul, que lhe fora ofertada e nem lhe cabia direito. Usou sua própria arma, a funda, e ali colocou a pedra para jogá-la no lugar certo, na testa do gigante.


Assim como o senhor, dom Moacyr, Samuel era homem corajoso, temente a Deus, preparado para o sacerdócio desde um ano de idade. O senhor é muito importante na minha vida, da mesma forma que Samuel foi na vida de Davi. E está me vendo com olhos cuidadosos, preocupados com circunstâncias que talvez me causem sofrimento.

Mas, como sabe por experiência própria, não podemos ficar presos às circunstâncias. Quando o senhor chegou ao Acre, aos 36, enfrentou os poderosos e ficou do lado de Chico Mendes e de todos os que eram aparentemente fracos e despreparados para enfrentar os gigantes das motosserras. Como me ensinou, não me intimido com as circunstâncias e procuro me encontrar com o que está no coração de homens e mulheres sinceros, que, como o senhor, buscam fazer o melhor, apesar das dificuldades e riscos.


Aprendi com o senhor boa parte dos valores que me guiam, entre eles não vergar a coluna às pressões dos interesses espúrios. Por favor, meu amado irmão, não me diga agora que esses valores não servem para governar o Brasil e me fragilizam. Tranqüilize-se: eles são e continuarão sendo a minha força e a minha funda diante dos desafios, qualquer que seja o tamanho deles.


(Publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 24 de maio de 2010).

RESPOSTA DE DOM MOACYR
Gostaria de desfazer possíveis ambiguidades de minha entrevista publicada em 22/5. “Fragilidade”, a respeito de Marina Silva, na minha intenção, é mais elogio do que qualquer crítica. Exprimindo melhor meu pensamento, a “fragilidade” se traduz por “sérias dificuldades” que vai enfrentar, caso eleita, para levar à frente o seu governo.

Na verdade, concordo com Marina que o jovem Davi, tão frágil e tão mal armado, venceu o gigante Golias. O Deus de Jesus Cristo está sempre ao lado dos pobres e injustiçados, e nos dá força e coragem até para o martírio. Mas, em geral, não faz milagres, e conta com o trabalho até extenuante de seus discípulos por mundo um pouco mais justo e fraterno. E é assim que Marina tem se comportado desde que a conheço.

Marina não precisa de “mentor político”. E, em caso de necessidade, não seria eu a pessoa indicada. A resposta de Marina (“Ao amado dom Moacyr“) está a altura da Marina que conheço.

DOM MOACYR GRECHI, arcebispo de Porto Velho (Porto Velho, RO).

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